9 de Fev de 2010

Quantas vezes não sentimos o mesmo numa relação amorosa? Quantas vezes não nos repetimos, na esperança de que o outro oiça e entenda o que lhe queremos dizer? Quantas vezes não pedimos coisas, para nós tão importantes, à espera que se tornem também importantes para o outro? E o que fazer quando o outro não ouve, ou ouve mas não entende, ou entende mas no fundo não respeita, porque não muda a sua actuação em função dos nossos desejos?
Eu sou parecida com a minha tartaruga; enquanto acreditar que o meu caminho é por ali, vou continuar a seguir em frente, em direcção ao meu Poente. Prefiro manter-me no meu aquário, ainda que o mundo lá fora se agite, pule ou avance. Prefiro saborear o meu território conquistado, aproveitar tudo o que há de bom no meu habitat natural e dar tempo ao tempo, ser paciente e não saltar da minha redoma, até porque o mundo cá fora não é exactamente como parece.
mrp

21 de Jan de 2010

Já lá vai algum tempo que amei pela primeira vez. Já lá vai algum tempo que me beijaste pela primeira vez. Agora qualquer dia é passado ao teu lado, a ouvir a chuva e a amar-te como se me dessem o mundo para as mãos, e eu louca, o amasse todos os dias com a mesma intensidade. Há amores que rompem, que gastam, que se desleixam, que fogem, que partem. Eu não deixo que isso aconteça, mesmo que esteja previsto acontecer. Encontrei-te sabe-se lá onde, tu sabes que não és de cá, nem deste mundo sequer, nem deste universo, é impossível. Ainda sonho como uma menina nos teus braços e, perdoem-me mas sinto-me ingenuamente doce, aquecida por ti, pelos teus beijos e pelo teu sorriso lindo quando dizes que sou tua. Já nem sequer devia acreditar que o mar é azul e é o melhor amigo do céu porque já nem tenho idade para isso, e já deveria saber que o negro é um fantasma que nos assusta sem sabermos quando nem porquê, mas sou incapaz de me abstrair disto, que vivo todos os dias.
Amo o cheiro doce da tua pele e mexer-te no cabelo enquanto olhas para mim com cara de puto mimado, amo os teus olhos quando dizes que me amas, tens ouro dentro de ti, tu presencias o meu coração, todos os dias. E nunca será demais, dizer que te amo, amor meu.

1 de Dez de 2009

14:)

Obrigado sabes, por todos os momentos de ansiedade e nervosismo, por todas as dúvidas e questões, por todos os pensamentos complicados e associações feitas pelo coração. Tudo isto faz com que eu dê mais valor a pequenas coisas às quais não dava tanta importância.


Tudo isso faz com que eu goste de ti, assim...

És o meu mundo.

10 de Ago de 2009

na fossa...

Por mais que tentes, por mais que queiras, por mais que precises, nunca me vais esquecer. Cada momento, cada palavra, vai tudo ficar marcado na tua memória. É certo que com o tempo tudo vai ficando menos nítido, mas também não é menos verdade que todos somos parte daqueles que amamos e nunca esquecemos aquilo que somos. Por isso, vais sempre lembrar-te de mim. Durante muito tempo, o meu cheiro vai continuar a ser o teu, vai permanecer forte nas tuas roupas e principalmente em cada bocado da tua pele. A minha imagem nunca te irá sair da cabeça, pois vais sempre recordar o meu jeito meigo de te seduzir e o meu cabelo na tua cara. Vou atormentar-te em cada dia que passares longe de mim. Poderás estar com quantas outras raparigas quiseres, mas será sempre o meu corpo que vais desejar ter ai ao teu lado. Por mais que te esforces para te convenceres do contrário, é a mim que tu queres, é comigo que tu sonhas, é a mim que desejas. Quando a noite chegar à tua janela, e só a lua te fizer companhia, sei que é em mim que vais pensar. Quando alguém te magoar é o meu abraço que vais querer sentir, é do meu silêncio que vais sentir falta. Quando te mentirem, te atraiçoarem, e te deixarem, vais rever-te nessas atitudes e vais desejar voltar atrás no tempo. Quando a saudade for mais forte que tudo, vai ser pelo meu nome que vais gritar até a voz ficar rouca. Com o passar do tempo vais entender por ti próprio que vou estar sempre em ti, mesmo que não me vejas, que não me sintas, nem me oiças. Acredito que até possas voltar a viver situações arrebatadoras e semelhantes às que viveste comigo, mas vais sempre reparar nas pequenas diferenças e pormenores que te farão perceber que já não sou mais que o inatingível. Vais notar que nenhum dos sorrisos com que te vais cruzando ao longo da vida te vai fazer tão feliz quanto o meu, que nenhum beijo têm o mesmo sabor, e que nenhum toque te provoca tanto, porque ninguém te conhece como eu... A música que ouves, os filmes que fazes, os passeios que dás, nada vai parecer tão bom. Vai-te faltar a minha voz ao fundo a trautear a letra da música, a minha companhia esticada no sofá e as minhas teorias descabidas enquanto olhas para o céu. Vais começar a sentir falta do meu calor, do meu carinho e sobretudo da minha dedicação. Vais chegar á triste conclusão de que o simples gesto de andar por aí de mão dada já não sabe bem. E sabes porque? Porque não é a minha mão que seguras, não é o meu corpo que dança ao ritmo do teu. É aí que te vais atirar ao chão, que vais chorar, porque perceberás com a nitidez de quem bate com a cabeça na parede, que perdeste muito mais que eu. Mas por enquanto podes sentir-te seguro porque eu ainda estou aqui para te agarrar.

12 de Jun de 2009

O Primeiro Amor

É fácil saber se um amor é o primeiro amor ou não. Se admite que possa ser o primeiro, é porque não é, o primeiro amor só pode parecer o último amor. É o único amor, o máximo amor, o irrepetível e incrível e antes morrer que ter outro amor. Não há outro amor. O primeiro amor ocupa o amor todo.
Nunca se percebe bem por que razão começa. Mas começa. E acaba sempre mal só porque acaba. Todos os dias parece estar mesmo a começar porque as coisas vão bem, e o coração anda alto. E todos os dias parece que vai acabar porque as coisas vão mal e o coração anda em baixo.
O primeiro amor dá demasiadas alegrias, mais do que a alma foi concebida para suportar. É por isso que a alegria dói - porque parece que vai acabar de repente. E o primeiro amor dói sempre demais, sempre muito mais do que aguenta e encaixa o peito humano, porque a todo o momento se sente que acabou de acabar de repente. O primeiro amor não deixa de parte um único bocadinho de nós. Nenhuma inteligência ou atenção se consegue guardar para observá-lo. Fica tudo ocupado. O primeiro amor ocupa tudo. É inobservável. É difícil sequer reflectir sobre ele. O primeiro amor leva tudo e não deixa nada.
Diz-se que não há amor como o primeiro e é verdade. Há amores maiores, amores melhores, amores mais bem pensados e apaixonadamente vividos. Há amores mais duradouros. Quase todos. Mas não há amor como o primeiro. É o único que estraga o coração e que o deixa estragado.
É como uma criança que põe os dedos dentro de uma tomada eléctrica. É esse o choque, a surpresa «Meu Deus! Como pode ser!» do primeiro amor. Os outros amores poderão ser mais úteis, até mais bonitos, mas são como ligar electrodomésticos à corrente. Este amor mói-nos o juízo como a Moulinex mói café. Aquele amor deixa-nos cozidos por dentro e com suores frios por fora, tal e qual num micro-ondas. Mas o «Zing!» inicial, o tremor perigoso que se nos enfia por baixo das unhas e dá quatro mil voltas ao corpo, naquele micro-segundo de electricidade que nos calhou, só acontece no primeiro amor.
O primeiro beijo é sempre uma confusão. Está tudo a andar à volta e não se consegue parar. A outra pessoa assalta-nos e deixa-nos tontos, isto apesar de ser tão tímida e inepta como nós. E os nomes dos nossos primeiros amores? Os nomes doem. Parecem minúsculos milagres. Cada vez que se pronunciam, rebenta um pequeno terramoto no equador. E as mãos? Quando a mão entra na mão de quem se ama e se sente aquele exagero de volts e de pele, a única resposta sensata é o assassínio, o exílio, o suicídio. Nada fica de fora. O mundo é uma conspiração cinzenta de amores em segunda mão. Nada é puro fora daquelas mãos. O tesouro está a arder, as pessoas estão a morrer, os olhos cheios de luz estão a cegar, mas o primeiro amor é também, e sem dúvida, o primeiro amor do mundo.
O primeiro amor é aquele que não se limita a esgotar a disposição sentimental para os amores seguintes: quer esgotá-la. Depois dele, ou depois dela, os olhos e os braços e os lábios deixam de ter qualquer utilidade ou interesse. As outras pessoas - por muito bonitas e fascinantes que sejam - metem-nos nojo. Só no primeiro amor.
Não há amor como o primeiro. Mais tarde, quando se deixa de crescer, há o equivalente adulto ao primeiro amor - é o primeiro casamento; mas não é igual. O primeiro amor é uma chapada, um sacudir das raízes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e não nos explica. Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as órbitas dos olhos, do impensável calor de poder-mos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde saltamos. Saltamos e caímos. Enchemos o peito de ar, seguramos as narinas com os dedos a fazer de mola de roupa, juramos fazer três ou quatro mortais de costas, e estatelamo-nos na água ou no chão, como patos disparados de um obus, com penas a esvoaçar por toda a parte.
Há amores melhores, mas são amores cansados, amores que já levaram na cabeça, amores que sabem dizer «Alto-e-pára-o-baile», amores que já dão o desconto, amores que já têm medo de se magoarem, amores democráticos, que se discutem e debatem. E todos os amores dão maior prazer que o primeiro. O primeiro amor está para além das categorias normais da dor e do prazer. Não faz sentido sequer. Não tem nada a ver com a vida. Pertence a um mundo que só tem duas cores - o preto-preto feito de todos os tons pretos do planeta e o branco-branco feito de todas as cores do arco-íris, todas a correr umas para as outras.
Podem ficar com a ternura dos 40 e com a loucura dos 30 e com a frescura dos 20 - não outro amor como o doentio, fechado-no-quarto, o amor do armário, com uma nesga de porta que dá para o Paraíso, o amor delirante de ter sempre a boca cheia de coração e não conseguir dizer outra coisa com coisa, nem falar, nem pedir para sair, nem sequer confessar: «Adeus Mariana - desta vez é que me vou mesmo suicidar.» Podem ficar (e que remédio têm) com o savoir-faire e os fait-divers e o «quero com vista pró mar se ainda houver». Não há paz de alma, nem soalheira pachorra de cafunés com champagne, que valha a guerra do primeiro amor, a única em que toda a gente morre e ninguém fica para contar como foi.
Não há regras para gerir o primeiro amor. Se fosse possível ser gerido, ser previsto, ser agendado, ser cuidado, não seria primeiro. A única regra é: Não pensar, não resistir, não duvidar. Como acontece em todas as tragédias, o primeiro amor sofre-se principalmente por não continuar. Anos mais tarde, ainda se sonha retomá-lo, reconquistá-lo, acrescentar um último capítulo mais feliz ou mais arrumado. Mas não pode ser. O primeiro amor é o único milagre da nossa vida - e não há milagres em segunda mão. É tão separado do resto como se fosse uma primeira vida. Depois do primeiro amor, morre-se. Quando se renasce há uma ressaca. É um misto de «Livra! Ainda bem que já acabou!» e de «Mas o que é isto? Para onde é que foi?».
Os outros amores são maiores, são mais verdadeiros, respeitam mais as personalidades, são mais construtivos - são tudo aquilo que se quiser. Mas formam um conjunto entre eles. O segundo e o terceiro e o quarto, por muito diferentes, são mais parecidos. São amores que se conhecem uns aos outros, bebem copos juntos, telefonam-se, combinam ir à Baixa comprar cortinados. O primeiro amor não forma conjunto nenhum. Nem sequer entre os dois amantes - os primeiros, primeiríssimos amantes. Acabam tão separados os dois como o primeiro amor acaba separado dos demais. O amor foi a única coisa que os prendeu e o amor, como toda a gente sabe, não chega para quase nada. É preciso respeito e bláblá, compreensão mútua e muito bláblá, e até uma certa amizade bláblá. Para se fazer uma vida a dois que seja recompensadora e sobretudo bláblá, o amor não chega. Não se vive só dele. Não se come. Não se deixa mobilar. Bláblá e enfim.
Mas é por ser insustentável e irrepetível que o primeiro amor não se esquece. Parece impossível porque foi. Não deu nada do que se quis. Não levou a parte nenhuma. O primeiro amor deveria ser o primeiro e esquecer-se, mas toda a gente sabe, durante o primeiro amor ou depois, que é sempre o último.
Afinal nem é por ser primeiro, nem é por ser amor. A força do primeiro amor vem de queimar - do incêndio incontrolável - todas aquelas ilusões e esperanças, saudades pequenas e sentimentos, que nascem em nós com uma força exagerada e excessiva. Como se queima um campo para crescer plantas nele. Se fôssemos para todos os outros amores com o coração semelhantemente alucinado e confuso, nunca mais seríamos felizes. É essa a tristeza do primeiro amor. Prepara-nos para sermos felizes, limando arestas, queimando energias, esgotando inusitadas pulsões, tornando-nos mais «inteligentes».
É por isso que o primeiro amor fica com a metade mais selvagem e inocente de nós. Seguimos caminho, para outros amores, mais suaves e civilizados, menos exigentes e mais compreensivos. Será por isso que o primeiro amor nunca é o único? Que lindo seria se fosse mesmo. Só para que não houvesse outro.

Miguel Esteves Cardoso - Os Meus Problemas (1988)